A dependência química caracteriza-se como um transtorno mental em que o indivíduo se encontra escravo do uso de substâncias de naturezas diversas em busca do aumento do prazer, diminuição da dor e do sofrimento ou fuga da realidade. É um fenômeno basicamente mental, alimentado pelas sensações, pelas lembranças e pelo desejo de repetição. Diferentemente do que muitas pessoas pensam, não é um fenômeno recente, exclusivo da nossa sociedade do século XXI, mas sim, antigo. Praticamente com a mesma idade da história da humanidade. Desde a antiguidade o homem já se aventurava em busca de prazer. Na tentativa de viver novas experiências acaba por introduzir um mal incalculável na sociedade. Mal este que vem se disseminando com grande velocidade. Cada vez mais as drogas se espalham pelo país, sem distinção de classes. A quem ou a quê podemos atribuir tamanha responsabilidade? À oferta do produto? Ao governo? Ao tráfico? Sem clientes não há comércio. De modo que então, já temos uma resposta. A chave da questão está em nós humanos. Mas afinal, quem são esses usuários de drogas em nosso país?
Segundo o relatório brasileiro sobre drogas o maior número de usuários durante a vida concentram-se nas regiões nordeste e sudeste do país, são do sexo masculino e apresentam maior dependência na faixa etária de 18 a 24 anos. Que fatores poderiam ter desencadeado este processo? A marginalidade, a desigualdade social, a pobreza? Certamente, não em todos os casos, mas na maioria deles.
Vamos refletir um pouco sobre o conceito de saúde definido pela organização mundial de saúde (OMS): “um estado de perfeito bem estar físico, mental e social”. Quantos brasileiros você é capaz de apontar vivendo em perfeito estado de bem estar social? Essa resposta explica a maior parte do problema. As desigualdades sociais, as grandes discrepâncias entre ricos e pobres e a dificuldade de ascensão social marginalizam as pessoas, transforma-os em lixo humano, roubam a sua dignidade. Vendo essa realidade imobilizá-lo, o indivíduo dá espaço para vários comportamentos doentios. A violência, a prostituição, o tráfico e o uso de drogas ganham lugar. O desequilíbrio da família, consequência desta condição humana no Brasil, também pode ser apontado como uma das causas da dependência química. O ciclo vai então se repetindo, causa e consequência se alimentam.
Por outro lado, jovens e adultos vivem uma crise de valores. As pessoas parecem estar se distanciando umas das outras. Forma-se um estranho abismo. Estar perto é tão fácil e rápido com tanta tecnologia, existem tantas maneiras de se divertir, mas elas parecem não ser suficientes. Falta amor. Iniciamos a era do abandono. Como é estranho estar tão perto e tão longe ao mesmo tempo. As pessoas se sentem insatisfeitas com suas relações pessoais e não conseguem atuar positivamente em busca de uma mudança. Parecem se entregar às necessidades do mundo globalizado e esquecem de viver, de amar, de valorizar o outro. Precisamos repensar nossos valores e restabelecer as relações de carinho que nos alimenta e nos motiva para a vida. Outro valor em desuso e essencial à humanidade é o desenvolvimento da espiritualidade. A necessidade de crer em uma força superior é inerente à natureza humana. Vivemos assim há séculos. Isso não significa estar preso a conceitos pré-estabelecidos. Ao contrário cada um pode escolher suas próprias convicções e encontrar uma maneira e um lugar para alimentá-las.
É preciso mudar, e mudar logo. Esse ciclo representa algo completamente destrutivo para a nossa sociedade. Pensar na complexidade da origem desse problema pode levar-nos a acreditar que é uma situação quase imutável, mas não devemos cair na descrença. Podemos tentar sanar um problema de cada vez, ajudando o dependente químico, dando a ele apoio, amor e oportunidade. O transtorno da dependência química pode ser controlado, mas após o tratamento o dependente precisa encontrar um ambiente saudável e que favoreça a manutenção da abstinência. Essa missão, por si só, já representa um grande desafio.
Mudar uma história de centenas de anos de desigualdade, preconceito e marginalidade é um processo lento e não se efetua sozinho. Além disso, nós seres humanos não podemos ser analisados em partes fragmentadas, somos um conjunto social, biológico e mental. Qualquer desequilíbrio em uma das partes desenvolve um processo patológico que pode comprometer todo o resto. Enquanto isso a sociedade vai pagando um alto preço. Perde sua liberdade e sua segurança. Bilhões e bilhões são empenhados em programas sociais que tentarão tratar a dependência química e depois devolverão cada usuário para a mesma situação de abandono da qual vieram. E, novamente, o ciclo se repete.
Entre as drogas mais usadas estão o álcool, o tabaco, a maconha, a cocaína e o crack, que mais parece uma epidemia. Essa crescente atração por drogas tem estimulado o surgimento de clínicas de recuperação, hospitais especializados, e inúmeros grupos de auto-ajuda muito eficientes no processo de recuperação do dependente químico. O melhor de todos os conselhos, no entanto, é não experimentar. Devemos investir na busca de práticas saudáveis e capazes de satisfazer nossos anseios físicos, sociais e mentais, sem deixar espaço para as drogas.
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